Locação de caminhões ganha impulso, mas divide empresas e especialistas

DCI - Diário Comércio Indústria & Serviços

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Consultores citam aumento de demanda “circunstancial” por conta de tabelamento do frete; Vamos, empresa da JSL para o segmento, vê grande potencial, bem como entidade de locadoras

A greve dos caminhoneiros e o estabelecimento da tabela de fretes rodoviários criaram um cenário promissor para o mercado – ainda parcialmente inexplorado – de locação de caminhões. A viabilidade da opção após o fim da “tempestade perfeita” que acomete a logística, contudo, divide players e especialistas.

 

Empresa da gigante JSL para o segmento, a Vamos afirma “com convicção que o modelo de negócios de locação de veículos pesados vai se perpetuar daqui para frente”, conforme palavras do diretor financeiro da unidade, Gustavo Moscatelli. Dentre a frota de mais de 10 mil veículos pesados da Vamos, cerca de 6,5 mil são caminhões.

Segundo o executivo da empresa, a greve dos transportadores em maio foi apenas um “evento adicional” que colaborou com aumento de 30% na carteira de clientes de locação da Vamos durante o primeiro semestre.

“Foi uma janela de crescimento que não contávamos”, afirmou Moscatelli, observando que uma alta na demanda já era observada há dois anos – ou quando o benefício do juros subsidiado para a compra de veículos pesados foi reduzido.

Ao DCI, a Associação das Locadoras de Automóveis (Abla) também demonstrou uma atenção especial pelo segmento – que ainda teria muito espaço para crescer entre as cerca de 11 mil associadas na entidade.

Presidente do conselho nacional da associação, Paulo Miguel Jr. afirma que dos 710 mil veículos na frota do setor, apenas 13 mil são caminhões. “É um mercado em crescimento, mas pouco explorado pelas locadoras, que ainda estão [restritas a] nichos específicos neste segmento.”

Sócio da área de consultoria da Deloitte, Celso Kassab classificou o mercado como “emergente”, mas por “consequência direta do estabelecimento da Medida Provisória nº 832, que prevê a Política de Preços Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas”. A medida do governo federal teria incentivado “empresas com melhor estrutura de planejamento” a considerar a locação, bem como o roteamento para outros modais (com destaque para a cabotagem) ou a própria compra parcial ou total de caminhões.

“Considerando volumes regulares, passa a ser interessante a aquisição”, avaliou o sócio da Deloitte. “[Já a locação] faz mais sentido em viagens spot para cargas especiais ou destinos não recorrentes, onde a oferta de prestadores é limitada”, completou Kassab, que não descarta opções híbridas que combinem ambas.

O especialista, contudo, afirma que locar caminhões ao invés da optar por transportadoras pode não trazer vantagem ao contratante. Ressalvas quanto ao modelo também foram feitas pelo sócio da consultoria em supply chain Diagma Brasil, Rodrigo Arozo.

“A demanda por locação está maior hoje do que a demanda histórica, mas por conta da artificialidade criada pela tabela de fretes”, argumentou ele, questionando a sustentabilidade do modelo no longo prazo ou em cenário onde a política seja revista pelo governo.

Por outro lado, o sócio da Diagma Brasil reconhece vantagens como “jogar o custo de logística como despesa” (diminuindo a incidência de impostos) e preocupações menores com serviços de manutenção e renovação de frota. “É uma opção intermediária para quem quer se livrar do frete mínimo, mas que não chega a tentar uma solução definitiva que é a compra”, avaliou Arozo.

 

Mercado

Apesar da discordância entre mercado e especialistas, players que atuam com a locação de caminhões estão se movimentando. A própria JSL já admitiu que estuda um IPO da Vamos “como alternativa para alavancar a operação”, segundo Moscatelli. “Mas isso não é fator decisivo para nossos negócios”, completou.

Outro movimento recente envolveu a gestora de frotas paranaense Ouro Verde – cujo controle foi adquirido no final de agosto pela gestora de ativos canadense Brookfield Business Partners. As cifras do negócio atingiram R$ 660 milhões por 55% do capital social da brasileira.

Da Deloitte, Celso Kassab ainda cita algumas “empresas que tinham frota própria com certa ociosidade durante um período” e que “estão começando a alugar seus ativos durante essas janelas de ociosidade, o que também tem gerado uma nova fonte de receita, no mínimo para custear o financiamento dos respectivos veículos.”

Nem todo o mercado, contudo, está colhendo benefícios. Com 270 caminhões disponíveis para locação, a mineira Lafaete sinalizou ao DCI que a greve levou clientes “a pedir descontos porque o caminhão ficou parado em maio”, segundo o gerente de equipamentos da empresa, Felipe Silva. De acordo com ele, “tentar brincar de logística de caminhões nem sempre dá certo.”

 

Fonte: DCI

 

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