Movimentação de carga saltou 40% e atingiu R$ 2,8 trilhões no 1º semestre

DCI - Diário Comércio Indústria & Serviços

PAULA CRISTINA • SÃO PAULO

Publicado em 

Alta substancial no fluxo de mercadorias nas rodovias esconde a situação precária das estradas, falta de equilíbrio entre os modais e forte pressão na redução de custos nas pontas desta cadeia

A movimentação de carga rodoviária atingiu R$ 2,8 trilhões no primeiro semestre deste ano, segundo AT&M. O resultado, 40% superior ao de 2017, esconde problemas estruturais nas estradas, impactos da greve de maio, dependência de um único modal e o valor do frete defasado, fatores que, resolvidos, poderiam fazer o PIB do Brasil disparar.

“Em junho, após a greve dos caminhoneiros, foram declarados R$ 522 bilhões em produtos, a maior cifra registrada no semestre, contra R$ 401 bilhões averbados em maio, no auge da crise da paralisação dos caminhoneiros”, explicou o sócio diretor da AT&M Tecnologia, Vagner Toledo.

O levantamento da companhia que realiza averbação eletrônica para o transporte de cargas, e leva em conta os processos feitos em mais de 20 mil empresas, aponta que essa agilidade de recuperação se deu frente a um cenário ainda desafiador da economia brasileira. “Mesmo assim os empresários do setor estão ajudando para a recuperação da economia de forma positiva”, diz Toledo.

Na avaliação do consultor em transporte e especialista no modal rodoviário, João Batista Ferreira, o incremento esta associado ao bom desempenho do agronegócio, já que muitas culturas apresentaram safra recorde e será, novamente, o destaque no Produto Interno Bruto (PIB) no ano. “Apesar de todos os problemas estruturais que existem no transporte de grãos – como desperdício em estradas esburacadas, acesso e mobilidade precários em alguns estados – o agronegócio segue escoando quase que exclusivamente pelo modal rodoviário”, avalia.

Para o especialista, caso houvesse um trabalho mais efetivo de melhora nas estradas e equilíbrio com os modais secundários – como hidrovias e ferrovias – o volume transportado dentro do País, tanto em consumo interno quanto em exportações, poderia dobrar no médio prazo. “Se houvesse mais agilidade no transporte, o tamanho continental do Brasil permitiria que nosso fluxo de mercadoria fosse escoado em portos de Norte a Sul, além de chegar de modo mais eficiente para a mesa do brasileiro”, conta.

Na ponta do lápis “Belíndia”

Segundo o levantamento AT&M, o melhor mês para o transporte de carga é em dezembro. Em 2017, o último mês do ano movimentou R$ 411 bilhões, cifra que apesar de 34% maior que em 2016, equivale ao verificado em maio deste ano, período considerado atípico por conta da greve.

“Com o comércio reagindo, a indústria produzindo e o agronegócio crescendo, é possível prever que o salto de 40% do primeiro semestre continue na soma de 2018”, diz Ferreira.

De modo similar pensa o professor de logística e doutor em integração nacional, Edson Castro. Ele lembra que um estudo recente da Confederação Nacional do Transporte estimou que seriam necessários R$ 566 bilhões em investimento no modal rodoviário para que o setor atingisse o ponto máximo de eficiência no longo prazo. “O País decidiu apostar todas as fichas no modal rodoviário, e ainda assim o déficit em investimentos é imenso.”

Para ele, além dos problemas visíveis, como custo alto do transporte, dependência do governo e falta de segurança, é preciso que se pense em política públicas para compensar a imensa produção de gases poluentes soltos nas estradas.

O termo, cunhado na década de 1970 pelo economista Edmar Bacha representa o Brasil diante de dois opostos: leis e impostos de um país como a Bélgica, e realidades desiguais como a Índia. Desde o nascimento da expressão, no entanto, as mudanças caminharam devagar e, muito possivelmente, vieram pelas rodovias.

“Não adianta ter estradas incríveis em São Paulo e no Paraná, e não ser possível passar em estados do Norte. Esse paradoxo que as rodovias brasileiras enfrentam não são apenas alienantes para a economia, mas também impedem o desenvolvimento humano em regiões mais afastadas, aquelas que atuam nos campos”, conta Ferreira, que questiona: “Se o frete está tabelado, o imposto não pode ser burlado, o grão precisa acompanhar a cotação internacional e as perdas do produtor na estrada crescem, de onde você imagina que virá a diminuição da despesa?”

“Da mão de obra”, responde.

Fonte: DCI

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