Nos grupos de WhatsApp verdades e mentiras entre criticas e poucos elogios

Valor - 24/04/2019

“Não queremos esmola. Para que financiamento para comprar caminhão se o caminhoneiro tá sem dinheiro para comprar o pão?”, pergunta um motorista

“Não queremos esmola. Para que financiamento para comprar caminhão se o caminhoneiro tá sem dinheiro para comprar o pão?”, pergunta um motorista

Acompanhar alguns grupos de caminhoneiros de todo o Brasil no WhatsApp é sair da realidade. Mais que um exercício para entender os pleitos de uma categoria agora em evidência diante da ameaça de uma nova paralisação, é também um aprendizado de linguagens, histórias, visões e questões envolvendo motoristas e suas famílias das mais diversas regiões do país.

Em dez dias eu vi e ouvi muita informação e desinformação, imagens deturpadas, áudios conspiratórios e notícias falsas. Li ataques à imprensa, mas também pedidos de apoio à mesma imprensa; imagens e expressões de ódio, em meio a mensagens carinhosas de bichinhos e de boa Páscoa. E muitos e muitos áudios de gente comum, tentando fazer seu trabalho.

Comecei o acompanhamento com mais ênfase dois dias após a Petrobras anunciar o aumento do diesel e voltar atrás a pedido do Planalto. Em seguida, após negociações com alguns representantes da categoria, o governo anunciou uma série de medidas para beneficiar a categoria e impedir uma nova greve. A alegria durou pouco. No dia 17, a Petrobras anunciou um aumento de 4,8% no diesel. E os grupos de caminhoneiros no WhatsApp enlouqueceram.

“O governo fez um carinho, passou gelzinho e dois dias depois .... ”, escreveu um motorista de Curitiba (PR). “Não queremos esmola. Para que financiamento para comprar caminhão se o caminhoneiro tá sem dinheiro para comprar o pão? Todo mundo tem nome no SCPC e no Serasa”, disse outro, de Belém (PA).

Antes de o governo anunciar que reajustaria a tabela de preços mínimos dos fretes rodoviários de acordo com as oscilações do diesel e prometer que fiscalizaria o cumprimento dos valores mínimos previstos, era esse o tom entre centenas de caminhoneiros em sete diferentes grupos no WhatsApp, cada um com pelo menos 400 mensagens por hora.

Na tentativa de explicar o apoio à compra de veículos, um áudio vindo do Paraná dizia: “O governo é liberal, não era o que vocês queriam? Tem que deixar vender caminhão. Mas agora eles vão subsidiar e isso não é liberal, né? Vai entender. Liberal é uma coisa, mas dar dinheiro para grande é dar sardinha para tubarão. Tem que consertar o excesso de caminhão dado por Lula e por Dilma”.

Naquele momento, antes do armistício que parece ter evitado uma nova mobilização, também era ponto pacífico que Wallace Landim, conhecido como Chorão, não representava caminhoneiros autônomos, como ele dizia e como o governo declarou. “Nem caminhão ele tem, nunca teve” dizia uma das mensagens “gentis”, em meio a muitas outras com xingamentos e palavrões.

Em meio à chuva de mensagens, diversos prints de caminhoneiros que trocaram mensagens com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Entre elas a de um dos líderes de um dos grupos de WhatsApp, Wanderlei Dias, o Dedeco: “Eu não posso ficar mediando briga de caminhoneiro, né?”, dizia Lorenzoni sobre as divergências entre Dedeco, depois bloqueado pelo ministro, e Chorão.

O que os caminhoneiros querem mesmo é a revisão e uma fiscalização efetiva para que a tabela de preços mínimos do frete seja praticada, que virou promessa do governo. E um tabelamento ou controle dos preços do diesel.

Centenas de mensagens citam os valores oferecidos por embarcadores para as mercadorias. Todas, sem exceção, falam de queda nos preços. “Tava puxando soja em Paragominas (PA) por R$ 105 a tonelada semana passada. Cheguei hoje aqui e estão pagando R$ 73. Tem uma galera aqui parada no posto se negando a ir com esse valor e, em nome de Jesus, espero que corrijam”, dizia um motorista com DDD do Ceará.

Na reunião de segunda-feira com o ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, Dedeco e outros motorista receberam a garantia de que cada aumento do diesel será imediatamente repassado à tabela de frete. Também foi prometido que os autônomos não serão penalizados por denunciar à Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) os embarcadores que não cumprirem os preços da tabela.

E vieram mais reclamações. “Agora viramos fiscais. A ANTT não faz o trabalho dela e a gente vira dedo-duro! Muito bem, quero ver quem denunciar receber carga de novo do embarcador denunciado”, dizia em um áudio uma caminhoneira de Goiás.

A partir dos relatos, é possível concluir que a paralisação para marcada para o dia 29 de abril ainda tem adesão nesses grupos. Mas boa parte prefere dar um voto de confiança para o governo, e alguns querem atear fogo em distribuidores de combustível. Ao mesmo tempo, pequenas paralisações já ocorreram no terminal ferroviário de Rondonópolis (MT) e em Balsa (MA) devido aos preços oferecidos pelo frete.

Mas os grupos dos motoristas estão longe de apenas discutirem essas questões. No domingo de Páscoa, foi incontável a quantidade de coelhos e mensagens sobre Jesus e ressurreição. E era dia de finais de campeonatos estaduais de futebol, o que abriu espaço para comemorações e provocações, quase todas ignoradas.

Um ou outro post ao longo desses dias alertava para dificuldades em estradas, perguntava sobre manutenção das carretas e vendiam peças. Outros contavam experiências com o cartão de abastecimento, ampliado pelo governo no pacote de medidas de apoio. “Ah, é uma droga, você enche o cartão de diesel e fica sem dinheiro, aí quebra o caminhão na estrada, você está sem nada e vende os R$ 500 que pôs de diesel por R$ 200 para o mecânico”, contava um motorista de Fortaleza.

Do nada também surgiram teorias estranhas. Uma delas acusava os maçons de serem donos de todos os pedágios do país para lavarem dinheiro. Tancredo Neves também foi lembrado por alguém por ter sido o presidente que menos roubou durante seu mandato. “Me mostre que ele roubou enquanto presidente”. E essa postagem deu gás para discussões sobre se o expresidente foi assassinado ou não.

Ao fim e ao cabo, ficou evidente que o apoio da categoria ao governo Bolsonaro sofreu arranhões. Mas que os caminhoneiros também não querem um governo militar ou a volta do PT. O que eles querem mesmo é trabalhar.

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