Uber, Lyft, Pinterest e Airbnb impressionam, mas não dão lucro

Valor - 09/04/2019

O mundo inteiro condena os males das finanças voltadas para o curto prazo, na maioria das vezes com razão. Mas um outro fenômeno vem se tornando cada vez mais preocupante: a visão excessivamente voltada para o longo prazo.

Ficamos preocupados quando as empresas espremem demais os ativos que já tem, afetando sua saúde no longo prazo. Mas devemos nos concentrar também em um grupo crescente de companhias que adiam constantemente o processo de extração desse "suco", prometendo ligar a máquina de monetização em algum momento de um futuro insondável.

Vale pensar nisso como uma horda de "unicórnios" galopando em direção aos mercados públicos nos Estados Unidos e outros países. Essas empresas privadas estão tentando levantar bilhões de dólares em uma série de ofertas públicas iniciais de ações (IPOs), recorrendo aos investidores do mercado acionário. Empresas como Lyft, Uber, Slack, Pinterest e Airbnb são impressionantes em quase todos os aspectos, menos um: elas não ganham muito dinheiro, se é que ganham.

Isso, porém, não parece preocupar muito os investidores. Afinal de contas, o lucro é uma coisa ligada demais ao século XX. Um estudo de Jay Ritter, um professor de negócios da Universidade da Flórida, observa que em 1980 somente 25% das empresas americanas tinham prejuízo quando abriram o capital. No ano passado, esse número era de 80%. A Lyft confirmou a tendência em seu IPO recente, quando levantou mais de US$ 2 bilhões, numa operação que a avaliou em US$ 24 bilhões, apesar de a companhia perder US$ 1,50 em cada corrida.

O exemplo mais extremo de uma companhia aparentemente com problemas financeiros e prometendo sucesso aos mercados é o concorrente Uber. Fundado em 2009, o aplicativo jamais teve lucro na última década. No ano passado, o Uber teve um prejuízo de US$ 3,3 bilhões sobre receita de US$ 11 bilhões. Mesmo assim, relatos sugerem que a companhia pretende abrir o capital este ano e chegar a um valor de mercado de US$ 120 bilhões.

O antiquado colunista Lex que existe em mim tem um certo respeito por empresas que ganham dinheiro. Quando eu estudava finanças, entendia que o valor de uma companhia dependia principalmente das previsões sobre seu fluxo de caixa futuro, lucratividade e dividendos.

Em termos de comparação, a avaliação antecipada do Uber é mais ou menos igual à da Philip Morris International, que teve um lucro operacional de cerca de US$ 11 bilhões no ano passado. As empresas de tabaco podem estar sendo lentamente destruídas pela mudança dos hábitos de consumo e advogados litigiosos, mas ainda produzem pagamentos generosos para os seus acionistas.

Desse ponto de vista, prejuízos enormes, empresas apoiadas por capital de risco que querem conseguir dinheiro nos mercados públicos perto do topo do ciclo provavelmente deveriam ser evitadas como motoristas bêbados em noite de sábado. Lyft e Uber parecem mais organizações filantrópicas que tiram dinheiro de empresas de capital de risco muito ricas para subsidiar o transporte urbano para milhões de usuários.

Uma das vozes do Vale do Silício que apontam porque esse pensamento é simplista, ou mesmo totalmente errado, é Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn e autor do livro "Blitzscaling". Sua afirmação é de que passamos de um mundo que dá vantagem ao primeiro a jogar, a um mundo que dá vantagem ao primeiro que obtiver escala. A companhia que consegue dominar o mercado num setor lucrativo, atraindo bilhões de dólares de "capital irracional", deve gerar retornos fantásticos numa economia em que o vencedor leva tudo.

O exemplo mais surpreendente de que o domínio dessa plataforma vem recompensando os investidores em ações é a Amazon. Quando a companhia abriu o capital em 1997, obteve um valor de mercado de cerca de US$ 400 milhões. Hoje vale US$ 900 bilhões, embora grande parte desse valor derive de seus negócios na nuvem da computação, que foram formados bem depois de sua abertura de capital.

O professor Ritter afirma que a atual onda de IPOs difere da bolha da internet de 1999-2000 em vários aspectos. O mais importante é que essas companhias que estão abrindo o capital agora são mais velhas, maiores e geram muito mais receitas. As vendas médias das empresas de tecnologia que estão abrindo o capital são cerca de dez vezes maiores que as das empresas da era da bolha. "Em 1999, muitas empresas abriam o capital quando não estava claro quem seria o vencedor, se é que haveria algum. Agora, está sempre claro quem ganhou", afirma ele.

Isso pode significar que essas companhias carregam menos risco operacional para os investidores, mas também implica em recompensas financeiras menores, dado que elas permaneceram empresas de capital fechado por mais tempo. Nenhuma dessas companhias pode igualar o desempenho da ação da Amazon no mercado.

Participar desses IPOs mais recentes não é tanto uma aposta nos fluxos financeiros previsíveis, quanto é em estruturas de mercado imprevisíveis. Poderão os investidores de hoje prever quais são as inovações tecnológicas que vêm por aí, como a competição vai mudar, ou como as autoridades reguladoras vão responder? Isso é de fato apostar no longo prazo.

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